sexta-feira, 8 de abril de 2011

Floruit

Onde há vernáculos sinto receptáculos
e cheiro de morte.
Onde há folhas sinto flores
e sinais de má sorte.
Onde há pele sinto veias e sangue
e tenho saudade de cortes.

Fausto

Sinto cheiro de cinzas cada vez que respiro. Deve ser minha alma virando carvão, e meu coração formando brasas. A vida é agridoce, mas nos faz engolir porcarias como putas de quinta categoria, e o jeito é aceitar.

Meus pensamentos se acumulam e sujam minha mente, o corpo parece querer rachar.
Somos todos tão frágeis como asas de borboleta, e tão sujos como pérolas dadas aos porcos.
E ninguém nunca se importa, só a solidão, que nunca quer te abandonar.

Todo mundo se odeia, o mundo odeia.
O mundo se odeia, todo mundo te odeia.
E ninguém pode fazer porra nenhuma para melhorar isso.
Somos todos ossos, carne e fluidos.
Nosso corpo é uma jaula que só cabe um animal.
Nossa alma é uma jaula, mas que cabem muitos animais.

Quero viver apenas o necessário para ler os livros que eu quiser.

Preciso viver apenas o necessário para ler os livros que eu puder.

Anima mea

Minha mente se eleva e deixa-se levar.
e permanece tão frágil quanto um colorido vitral.
Que a qualquer golpe se torce e estilhaça
E cai em pequeninos grânulos de areia sem cor.

Mas antes, fractais. Que colhem e se encolhem.
Como um coração em criação.
Fragmentos de almas, espelhos em molduras vivas.
Que abrangem e se expandem. Inspiram e expiram.
No labirinto sem saída que corre e escorre.
E assiste a Lua como um grande mural.
Dança e tropega.
Em cacos e restos.
Linhas e caminhos.
Todos presos nesse infinito umbral.

Adora

Gosto dos venenos mais fortes
e dos dias mais nublados.
Das bebidas mais apuradas
e dos livros mais antigos.
Das músicas mais tristes
e dos trabalhos mais pesados.
Do sono mais leve
e das noites mais agitadas.
Dos beijos mais intensos
e dos amantes mais robustos.

Dos dias mais tranquilos
e dos sonhos mais inquietos.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Aquel

Te amo do nosso jeito insone e bizarro de amar. Que muitos estranham e ridicularizam, mas nas mesmas armadilhas do insano tendem a também amar.

Te amo calada como quem costura retalhos, e se tu és feito de retalhos, que seja um deles o meu coração.

Te amo como a corda ao enforcado, como um bêbado ao descaso, como coisas que se atraem sem pensar.

Te amo amando teu silêncio, teu calor e o respeito a minha fuga e a minha fúria, que é apenas mais uma forma de amar.

Te amo inquieta como vidro quebrado e cristal facetado, como ervas amargas e venenos em cápsulas.

Te amo afogada em gritos. Como poeira em espiral, tempestade e temporal.

Te amo oblíqua, como frase inacabada, como caderno desfolhado, como tinta indelével.

Te amo inexistindo.

terça-feira, 22 de março de 2011

Alfa

Cada em sua fortaleza,
cada um em sua bolha.

Porque a vida nada mais é que uma reunião de coisas frágeis.

Fructus

maldito o toque, maldita a forma
maldito o som, maldita a luz
maldita é a boca, maldita é a língua.

maldito o céu que nos une
maldita a forma maldito o lugar
maldita a palavra, maldita a letra.

Bendito é o fruto, maldito é o ventre.